29/12/2006
Made in Índia
Será que as pessoas são tão inocentes a ponto de não saber o que acontece no mundo à sua volta? Seria melhor continuar na penumbra, agarrado à raiz dos pelos do coelho? Ou será que, na verdade, sou só a chata que sabe demais??
Um belo dia, eu, dando voltinhas por Balneário Camboriú, entro em uma loja atrás de um vestido para um casamento.
A vendedora, com cara de cansada, me mostrou um vestido lindo, cor de pele com uns bordados de canutilhos.
Como uma boa compradora, comecei a procurar nele uma etiqueta com o preço, mas a única etiqueta que eu encontrei foi uma de Made in Índia. Comentei isso. A vendedora me olhou, estupefata:
Como Índia?! A minha patroa trouxe esse vestido de MIAMI!!
Não entendi o choque nem a surpresa da mulher, que depois passou a olhar freneticamente para a etiqueta. Aquilo sempre foi claro pra mim desde os meus… dez anos? De qualquer forma, eu só mandei:
Ah.. mas isso não é estranho. Quer dizer, toda mão-de-obra americana é feita na ásia.
A moça ainda lutava com todas as forças contra a possibilidade da peça em sua mão ter vindo de um país subdesenvolido. Eu deixei o vestido de lado (nem tinha ficado bom mesmo) e saí da loja.
Nem cheguei a ver o preço, mas não devia ser barato. Pensei então em quanto não deve ter saído aquele vestido para o importador em Miami.
Menos de vinte dólares, eu estimei. Em mão-de-obra semi-escrava, ainda por cima. Isso se não houvesse trabalho infantil…
Tudo aquilo foi me deixando mal.
Lembrei da vez em que minha madrinha foi aos EUA e me trouxe uma Minie de pelúcia. Chegando no Brasil ela foi olhar a etiqueta (made in China) e ficou p. da vida.
Qual o problema que algumas pessoas têm em admitir que certo produto pode ter exelente qualidade e ser produzido em um país pobre? Por que idolatrar potências que não possuem matéria-prima nem mão-de-obra especializada para trabalhos tão simples e que se aproveitam de questões religiosas como as castas para reduzir custos de produção e obter lucros exacerbados?
E o pior: nós é que sustentamos isso tudo! Seja por ignorância, desinteresse ou preguiça, nós financiamos a exploração do homem.
Fiquei com pena da moça da loja. Pena de todos que creem nisso tão fielmente que é como se o “americanismo” fosse uma nova religião ou coisa assim!
As pessoas não buscam saber, simplesmente engolem a associação de padrões da mídia. A velha história de “o que vem de fora é chic”.
Vivemos em um mundo medíocre e niilista, depende apenas de nós decidirmos se vamos além, buscar algo melhor, ou só nos juntar às massas.
Technorati Tags: mão-de-obra, semi-escrevidão, castas, EUA, hipocrisia, Mal Vicioso
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