Revolução infecciosa
Resposta da professora Caroline à nossa pergunta:
Em primeiro lugar, antes de qualquer coisa, a História é a minha grande Paixão. Acredito no poder transformador dela. Acredito que a história é vida, está viva. Respira, transpira, incomoda, toca… toca fundo. História, para mim, não é substantivo. É verbo. É ação. É consciência, é movimento. Acredito (utópica e ingenuamente, talvez) que o primeiro passo para se destruir desigualdades, preconceitos e incompreensões é a percepção de que eles não são naturais. São históricos, são ensinados, são construídos e, portanto, mutáveis. Mútáveis pela nossa ação, pela nossa vontade.
Essa semana criei um blog para postar textos referentes às discussões que fizermos em sala. O nome do blog é “Inocentando Pandora” e tem um motivo para se chamar dessa forma. O motivo estou explicando em cada turma, mas aproveito para deixar aqui também, uma vez que expressa meus posicionamentos pessoais. Pandora, de acordo com a mitologia grega, foi a primeira mulher criada por Zeus. Criada perfeita e divina como punição à Prometeu (que entregou o segredo do fogo aos mortais e pagou preço terrivel por isso). Pandora carregava uma caixa dentro da qual estavam depositadas todas as mazelas possíveis e imaginárias. Por ordem dos deuses, tal caixa foi aberta e todos os males dissiparam-se pelo mundo. A caixa foi fechada a tempo de conter apenas o mais temível de todos. Aquele capaz de destruir a esperança. É por isso que, apesar de todos os absurdos que observamos diariamente, a esperança persiste. Pois bem, a idéia de “inocentar Pandora” é que, através do estudo da história, é possivel compreender que estas mazelas, que a incompreensão, que o preconceito, entre outros, são frutos da ação e vontade humana (desumana?), e que, portanto, podemos mudá-los…
Eu nunca acreditei na revolução vinda de cima. Isso pra mim não é revolução, é imposição. Sempre pensei assim. Desde os tempos em que era aluna do São José. Este sim um colégio católico e conservador. Rigoroso. Foi lá que conheci o melhor professor de história que tive. Talvez não em conteúdo ou em teoria, mas ele incitava. Cada aula era um tapa, era um chamado. Desde uma manhã de fevereiro, uma última aula de uma quarta feira qualquer, em 1996 eu acredito na História. Tenho um caso intenso e passional com ela. Desde então meu incômodo se direcionava a descobrir formas e nomes de pessoas e movimentos transformadores ou contestadores que pregassem a não violência. Sempre pensei no comunismo como o sistema ideal, mas nunca achei a forma ideal de implantá-lo. Esse professor costumava me chamar pela alcunha de “subversiva comunista”. Eu, como resposta, batizei-o de subversivo frustrado…
A graduação em história foi uma consequência (ainda que tenha assumido minha posição poucos meses antes do vestibular). Sempre soube que não poderia fazer outra coisa, que não estaria em outro lugar. Ali, para mim, era um espaço de revolução, de transformação (como penso hoje a respeito de estar em sala de aula, de trabalhar em um colégio). Como disse acima, não acredito na revolução vinda de cima. Acredito que ela se constrói no movimento contrário. Vindo de dentro… Ela começa quando você vê o jornal no fim do dia e sente um embrulho no estômago. ou quando você está sentado assistindo uma aula e sai angustiado da mesma (como eu saia). A revolução começa debaixo da pele e transborda pelos poros… é infecciosa e contagiosa…seu incomodo passa pra outro e outro e outro…e ai temos um movimento. Nem que seja em prol de causas pequenas (pequenas sim, mas não menores em importância). Se eu implantar esse bichinho, esse vírus ou essa bactéia em uma pessoa, tenho certeza que, de alguma forma ela vai crescer e, quem sabe, se tranforme em uma epidemia…
Estou gostando muito de estar no Salesiano. Ainda que não seja o colégio perfeito (já que o colégio perfeito não seria um colégio, seria qualquer outra coisa que, como não foi inventada eu não sei o que seria, mas seja o que for, vai ser um dia.) encontro lá preocupações, possibilidades e posicionamentos que não encontrei em nenhuma das outras instituições onde trabalhei. Ambas laicas, particulares e estatais. O fato de ser um colégio católico não me incomoda em nada, e já explico o por quê.
Na década de sessenta houve uma grade transformação no seio da Igreja Católica. Essa tranformação, oficializada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II (Foram quatro grandes reuniões, onde padres, bispos, arcebispos e o Papa, a partir dos desejos expressados através de cartas escritas por religiosos, vindas de todas as partes do mundo) o qual oficializou novas formas de se ser católico. Uma das grandes alterações foi a valorização do conceito de Povo de Deus, o qual pregava que não só os padres e religiosos eram responsáveis pelo projeto evangelizador, mas que todos seriam. Através da educação, da convivência, do respeito e etc as verdades cristãs deveriam ser disseminadas..e todos eram responsáveis por isso.
Nessa mesma época a América Latina passava por complicadas situações sociais. Problemas de distribuição desigual de terra, pobreza extrema, governos autoritários começaram a perturbar um grupo de religiosos que formularam uma nova teologia, uma nova forma de se compreender a ação e presença de Deus no mundo. Essa nova teologia foi chamada de Teologia da Libertação e era exatamente essa a proposta: “A libertação dos oprimidos”. Eles questionavam a pompa e riqueza do Vaticano e achavam que o papel da Igreja era uma papel transformador, revolucionário, que deveria agir pelas bases. As pessoas que se engajavam nessa teologia, nessa luta, tinham como símbolo a aliança de tucun (que é um tipo de palmeira). Se prestarem atenção, existem no Colégio Salesiano pessoas que ainda usam essa aliança…
Os grandes movimentos sindicais, a luta operária, a fundação do PT, a luta pela terra, pela reforma agrária nos anos sessenta, setenta e oitenta teve como base em grande parte a ação destes religiosos engajados com o social, preocupados com o outro e que lutavam acreditando que poderiam estar construindo um mundo melhor… Os Salesinos tem em Itajaí um projeto totalmente coerente com essas questões que é o parque Dom Bosco… Está lá, esperando a visista de vocês…
O fato de a maioria dos alunos serem de direita…Tive boas surpresas essa semana, mas sem contar com elas…Como seria fácil ser professora em uma escola onde todos tivessem uma consciência libertária e solidária. Agora eu pergunto a vocês: Qual seria o meu papel nessa escola? Qual seria minha luta? O que eu teria para mudar? Não…prefiro o desafio…prefiro todas as manhãs acordar e ir para um colégio onde vou encontrar um monte de gente que não tá com vontade de pensar, que não gosta de história e que é de direita. Se a cada aula eu conseguir colocar uma mosquinha atrás da orelha de um aluno (um só) já me dou por satisfeita. Temos 150 dias de aula, efetivamente. Tenho cinco aulas por dia. Serão 750 alunos no fim do ano…
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Concordo com a Carol… vírus! paixão! (Não dá um bom tema para um livro pós-estruturalista? hahaha)
Sabe de uma coisa?! Ano passado, na turma do terceirao, consegui implantar dois vírus! Duas alunas vão fazer história, uma delas está encantada com a possibilidade de ‘brincar’ com o que foi e o que é através do contato com as fontes… a outra, ela quer é tornar o mundo feministas!
Que ambas contaminem outros e outros…