Depois da Fabiana, o pai da Carol, que está morando em São Paulo e trabalhando na USP, também nos presenteou com um texto muito bem escrito sobre o poder da palavra.
Na reta final da última campanha eleitoral estourou o “escândalo do dossiê”, que, supostamente, fazia ligações entre o então candidato do PSDB ao governo paulista, José Serra, e a máfia das ambulâncias. Na ocasião, a mídia deu muitas manchetes e notícias adjetivando o documento como “falso” ou “suposto”. Antecipar o dossiê com um destes adjetivos tirava-lhe a força e colocava todo o ônus em cima dos compradores do documento, que, juridicamente, não cometeram nenhum crime, pois comprar informações é lícito.
Neste ano a justiça inocentou do episódio o presidente Lula e o senador Aloísio Mercadante. A mídia deu a notícia de que ambos estavam inocentados do escândalo do dossiê, que agora não era mais falso e nem suposto, não precisava.
Nos últimos dias a mídia têm vindo à TV dizendo que os alunos da USP “invadiram” o reitoria para protestar contra os decretos do governador que impediriam que a universidade prestasse contas à sociedade das verbas que recebe. Ouvido assim, fica parecendo que a instituição tem algo a esconder.
Ora, um dos panfletos distribuídos pelos alunos — que estão à disposição para consultas dos jornalistas de plantão — diz o seguinte: “Na quinta-feira, 3 de maio, cerca de 400 estudantes ocuparam (grifo meu) a reitoria da USP contra os decretos do governador de São Paulo, José Serra, que corta R$ 1 bilhão de verbas das universidades estaduais (USP, Unicamp, Unesp e Fatec´s) e ataca a autonomia administrativa submetendo-as a uma secretaria do governo.”
De começo, já há uma diferenciação entre a invasão da mídia e a ocupação dos alunos. Mas isso não é o pior. Tentar dizer que os alunos não querem que a universidade preste contas de suas verbas à sociedade é, pelo menos a mim, o ponto mais importante desta questão. Na realidade, os alunos, ainda segundo o panfleto, querem “… a revogação do decreto de José Serra, que impõe o fim da relativa autonomia universitária, proibindo a livre administração dos recursos da universidade” e continua “… que significa que qualquer tipo de gasto … ficaria subordinado à aprovação da secretaria que teria poder de vetar.” Este é o perigo à autonomia da universidade. Se a secretaria não gostar, não compra. Se uma pesquisa não interessar, não se pesquisa.
As palavras carregam em si uma força muitas vezes subestimada por falantes e ouvintes. E isso não se dá apenas nas relações com a mídia. Em todos os campos em que está presente a palavra — escrita ou falada — desempenha um papel fundamental. Por exemplo, um aluno de matemática que deve fatorar um número poderia realizar a seguinte análise: fatorar é um verbo e, portanto, designa uma ação. Esta ação é a de transformar em fatores. Fatores são as partes constituintes de uma operação de multiplicação — a ordem dos fatores não altera o produto, lembam-se?
Desta forma, para este aluno, fatorar um número é a operação transformá-lo em fatores, como em seis (o número) que é igual a dois vezes três (os fatores), escrito matematicamente como 6 = 2 x 3.
Entender e utilizar bem as palavras é importante para entender o mundo e ler as informações que ele nos dá e, ainda, tomar uma posição em relação a tudo isso. Em matemática, por exemplo, há uma diferença muito grande entre descobrir e inventar. Se você pensa que as entidades matemáticas são descobertas, está mais para o lado idealista de Platão. Se, ao contrário, pensa que elas são inventadas, encontra-se mais próximo ao realismo de Aristóteles.
Decisões que, muitas vezes, são difíceis de tomar, mas que podem fazer diferença, como no “penso, logo existo” — cogito, ergo sum — de Descartes. Se você aposta nesta fórmula, coloca a essência antes do ser, está mais para Platão. Se, ao contrário, joga suas fichas em “existo, logo penso”, manda um recado de que o ser vem antes da essência e Aristóteles agradece a sua adesão.
Portanto, cuidado com o que você ouve ou fala. Não são só palavras, são idéias.
José Roberto Peters, matemático, publicitário e mestre Educação Científica e Tecnológica. Atualmente trabalhando na USP como pesquisador do CNPQ.
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