05/02/2007
Não é ballet, é JAZZ
Historinha velha, mas inédita. Prova viva de que tudo pode acontecer quando se fica trancada pra fora de casa e se resolve arrumar o cabelo no banheiro da escola.
- O seu nome é Carol?
- Hmm… – “como ela sabe?” – É, respondi à menininha que me fez a pergunta. Ta escrito na minha camiseta, né?
- É. – disse ela, voltando para as sapatilhas que estava calçando. À sua volta, outras quatro meninas.
Claro que aquilo era óbvio pelos trajes delas e os coques que faziam nos cabelos, mas não resisti e perguntei:
- Vocês fazem ballet?
- Não. – respondeu a mesma garota, enquanto puxava o rabo loiro e emplastava-o de gel. – Eu, ela, ela e ela (e apontou as outras meninas) fazemos JAZZ.
A ênfase dada àquela palavra me deixou abismada. Como se fosse extremamente grave uma dançarina de jazz ser bailarina.
Uma que estava sentadinha, já a arrumar a bolsa se manifestou:
- A gente faz ballet também, mas só de vez em quando.
Pelo tempo que eu dancei, tenho plena consciência de que aulas de ballet clássico são indispensáveis para melhorar a técnica de movimentos de qualquer outro estilo. Resolvi deixar quieta essa parte da técnica. Num ataque de simpatia, desses que me dão de vez em quando, resolvi puxar papo. Não tinha como ir pra casa pois estava sem chave, então nada tinha a perder.
- Eu fiz aulas de jazz e ballet também há bastante tempo.
- Ah é? – a irritante loirinha do inicio da historia voltou a fazer comentários. – Então faz um passo pra eu ver.
- A valsinha, sabe fazer? – resolvi entrar no jogo dela. Assim como posso ser extremamente simpática tenho a habilidade de ser mordaz. Até mesmo com bailarinas loirinhas e meiguinhas cheias de gel na cabeça. Talvez principalmente com elas.
O passo que ela fez em seguida não foi nem de longe o que eu mencionara, mas me compadeci da pobre. Foi o meu erro. Mal ela parou sua dança olhou pra mim, ergueu a perna ao lado do corpo em direção à cabeça e mandou:
- Consegue fazer isso?
- Bem… Eu já consegui, mas faz tempo. – todas no banheiro estavam apreensivas olhando para mim quando levantei a minha perna. Nossas crianças interiores escolhem sempre péssimas horas para se manifestar. Quase consegui esticá-la completamente, o que me deixou feliz.
Minha performance, porém, fez com que rolasse um burburinho geral em que todas as garotas do banheiro começaram uma espécie de “concurso de flexibilidade”. Inclusive a loirinha, que começou tudo e parecia coordenar a competição.
Peguei minha mochila e saí de fininho, me arrependendo de ter puxado assunto. Contava com que menininhas – ainda mais bailarinas – fossem mais inocentes, ou ao menos impressionáveis. Esqueci de um detalhe: elas não eram bailarinas. Dançavam JAZZ!
Carol Peters é um pára-raio de confusão.
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