O que a imprensa não fala sobre a greve na USP
Quando eu ainda era aluna do Colégio Salesiano Itajaí já era de praxe discussões acerca do papel da mídia em nossa sociedade, principalmente durante as aulas de História, claro!
Na faculdade não foi diferente e os debates ganhavam tom acadêmico, o que me fez assinar revistas e jornais que me possibilitassem contato com notícias que permitissem, ao menos, pensar sobre o que acontecia no mundo… Queria algo além das ‘manchetes’, assim, me aventurei pela “Caros Amigos”, “Carta Capital”, “Le Monde”. Eu acreditava que os textos jornalísticos das mesmas propunham debates e análises, não apenas verdades encerradas.
Em minhas aulas as fontes de jornais e revistas se faziam presente, justamente, para que pudéssemos nos dar conta de que estes são políticos, fazem parte de jogos, são constituídos por relações de poder. Cada vírgula, palavra e silêncio são construções, nada, em um texto, é reflexo da realidade, pois quem os escreve são homens e mulheres mergulhados em suas paixões, desafetos, verdades. E a realidade é (re) apresentada pelas pessoas a partir de suas experiências.
Mas, escrever em jornal, ser repórter de tv, ou qualquer coisa deste campo, é também, incorporar as regras de publicação – aquilo que deve ser escrito/falado e lido/ouvido pela população, e quem decido isso são as linhas editoriais, que por sua vez trabalham para grupos/famílias que comandam a mídia oficial. Ou seja, o jornalista publica aquilo que é conveniente/permitido por determinados setores da sociedade.
Não pensemos que este é um jogo de “lobo mau”, muitas pessoas lêem e ouvem o que está posto nos meios de comunicação oficiais e acreditam piamente no que dizem. Não somos fantoches, mas, o perigo mora ao lado…
Em nosso país – democrático – podemos ter acesso as mais diversas mídias, de direita, esquerda, centro, lado, em cima, embaixo… E o perigo é acreditar que está variedade permite ter acesso às várias versões, a várias reflexões. Exemplificando: a Veja e a Época são do mesmo grupo, assim como, O Fantástico, o Jornal Nacional.
Porém, embora isso me fosse claro, apenas vivendo de perto os acontecimentos na USP é que posso dizer com certeza: Cuidado com o que vocês lêem e ouvem! Não autorizem que o “mundo jornalístico” os faça de bobos…
Há 20 dias a reitoria da USP foi ocupada (e não invadida) por alunos. Segundo a mídia oficial (Folha, Estado de São Paulo), esta é um ato de vandalismo e violência. Bem, não vou aqui discutir se esta é ou não legítima, só peço para que se atentem às formas como este movimento está sendo representado.
Vocês devem ter ouvido falar que os alunos exigem milhões de coisas e lutam contra 1 decreto do Serra (PSDB). Falatório, mas em nenhum momento – e eu venho acompanhando as notícias televisivas e impressas – preocupou-se em apresentar que decretos são estes, que além de prejudicaram a autonomia universitária, fragmentam a Universidade Pública, inviabilizando a pesquisa, contratação de professores, etc.
(Até agora o governador do Estado de SP anunciou 5 decretos, diretamente relacionados ao ensino superior… e mais de 100 que envolvem outros campos da sociedade. Não vou dissertar sobre os mesmos, quem tiver vontade dá uma olhada no site do Centro Acadêmico de Pedagogia da USP).
Globo, Record, Bandeirantes, Folha, Estadão se referem ao movimento e a Greve como um ato sem sentido, porém, nos roubam o direito de julgar se estes são ou não equivocados, quando jogam em nossas caras verdades prontas e acabadas. Selecionam entrevistados, recortam trechos de documentos, criam verdades que dão a entender que qualquer manifestação afeta os direitos sociais e que o Governo do Estado de São Paulo está correto. (Mídia, grupos políticos, relações de poder…)
Falando em direitos: decretos são inconstitucionais!
Privar o desenvolvimento de pesquisas que não dêem lucro imediato e repassar verbas para fundos privados, não seriam também aniquilar o direito a educação pública e a produção de conhecimento?
A “ocupação” foi o estopim. Porém, embora nos apresentem diariamente que o único problema “são os alunos, vagabundos, que não querem aula”, a Greve Geral vai além. É um movimento que reúne estudantes, funcionários e desde ontem professores. Ou seja, se as coisas fossem mais simples e a autonomia estivesse garantida, como o governo afirma, todas essas pessoas – sérias – adeririam ao movimento de “alguns” alunos?
Greves ou quaisquer manifestações são legítimas – embora a “justiça” paulista tenha divulgado hoje que manifestações sociais são contra lei. Percebem o absurdo do conteúdo daquilo que chega até nós?
Estou participando de Assembléias com alunos e professores e nossa maior preocupação é com a comunicação acerca do que vem acontecendo e com a força que enunciados jornalísticos têm em produzir efeitos de manipulação – apresentar a greve como algo errado, prejudicial. Como fazem isso? Impedindo debates, não convidando os diversos envolvidos para apresentar suas propostas.
Alguém, que vem acompanhando os acontecimentos da USP, sabe o que são decretos? Por que eles prejudicariam a Universidade Pública? Alguém ouviu opiniões que apóiam a greve?
Fala-se em liberdade de imprensa e expressão, como isto será possível quando não nos é dado o direito de pensar e as notícias são fragmentadas?
Sabiam que apenas alguns professores – professores eu disse!!! – têm seus textos publicados da Folha de São Paulo, em um caderno intitulado “Tendências e debates”? Ou seja, até o que deve ser discutido perpassa por silenciamentos…
Assim, não me cabe aqui dizer se aquilo que estamos fazendo é certo e errado, mas, o que me indigna é ver esse jogo “podre” (Meninos e meninas que foram meus alunos ano passado, lembram das discussões sobre as eleições presidenciais? Perceberam alguma semelhança?), e fico pensando o que é possível fazer para construirmos mídias alternativas e independentes, com suas verdades, mas, que nos permitam pensar…
Um pouco do que é a Greve na USP…
No interior da Greve existem pessoas a favor e contra a ocupação. Esta auxiliou para que as atenções fossem focadas na USP. Hoje fui até a ocupação. Diferente que noticiam, é super organizada, os alunos se dividem em comissões de comunicação, alimentação, limpeza, debates. Professores reconhecidos internacionalmente participam dos eventos organizados pelos alunos.
Os grevistas se reúnem diariamente, cada um com sua categoria (alunos, estudantes e funcionários) para programar as atividades durante a Greve: aulas públicas, debates, manifestações, debate sobre filmes,etc. Estas são pensadas nos Comandos de Greve que se reúnem diariamente.
Outros, que discordam da mesma, dão aulas, quando as salas estão abertas, já que os funcionários estão em greve também. Institutos continuam funcionando, normalmente. Outros ainda, ficam em casa e fazem a greve de pijama.
Seria muita inocência desejarmos apoio total.
Fabiana Nicolau, mestranda na USP
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A título de esclarecimento…
Escrevi o texto ontem, dia 24 de maio, ou seja, os professores entraram em greve dia 23.
Belo texto, Fabiana.
Essa é a minha best friend!

[…] da Fabiana, o pai da Carol, que está morando em São Paulo e trabalhando na USP, também nos presenteou com […]
Mais sobre a USP e a censura……
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Pena que não estou lá