Mal Vicioso: filosofando e discutindo a hipocrisia da sociedade

Cada vez mais a sociedade se acomoda com a exploração do homem pelo homem, mal que se torna um vício. Ainda que a angústia de não saber o que fazer nos persiga, podemos, juntos, descobrir a saída.

Revolução pela educação

O mundo está em suas mãos
O mundo está em nossas mãos!

Mesmo anos depois de sua morte, a frase de Schopenhauer continua tendo sentido:

“Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e ganhar ares de importante.”

Porém, nem sempre é assim. É muito bom saber que existem professores e alunos que estão mudando essa mentalidade, esforçando-se para sair dessa “mesmice”.

Embora muitos não saibam, os escritores do Mal Vicioso são crianças de 15 e 16 anos que estudam no Colégio Salesiano Itajaí (aka “melhor” ensino médio de Santa Catarina). Intrigados pelo fato de suas professoras de história libertárias darem aula lá [e agüentarem o ano inteiro felizes mesmo com alunos conservadores que não estão com vontade alguma de pensar] em vez de fazer qualquer coisa mais “útil” na vida, lançaram a seguinte pergunta às senhoritas Fabiana Nicolau e Caroline J. Cubas:

Por que vocês dão aula num colégio católico conservador ensinando adolescentes em sua maioria de direita e que em geral nem estão afim de aprender história e muito menos pensar/filosofar?

Na mesma tarde, a Fabiana já respondeu e nos permitiu a honra de publicar sua resposta, completíssima, aqui no Mal Vicioso. Confiram:

Eu fui aluna do Salesiano, 11 anos, família de classe média alta! Sempre tive de tudo, como boa parte dos alunos e alunas do Salesiano! Lá pelos 14 anos de idade comecei a me interessar pelo Socialismo e tudo mais! Pronto, mesmo morando numa casa gigante, decidi que não era só eu quem deveria ter tudo o que eu tinha! Havia uma indignação muito grande sabe? Principalmente quando eu comecei a estudar Historia no Ensino Médio!

Minhas leituras eram voltadas pra Che, Caros Amigos, Socialismo… Eu me incomodava profundamente com a desigualdade! Lá pelos 16/17 anos minhas incomodações aumentaram - odiava ver as guerras na TV, acompanhei a I Guerra do Golfo, como cada dia que passava eu odiava o preconceito! Confesso que não sei explicar racionalmente de onde veio esse meu odio pelo racismo e pela homofobia!

Diante disso decidi que deveria ser jornalista e mostrar as desigualdades do mundo! E depois fazer História!

Bem, fiz história primeiro e nunca fiz jornalismo!

Antes do sexto período da faculdade não queria ir pra sala de aula, até fazer meu primeiro Estágio!

Nunca trabalhei em escola particular e acredito que a falta de vontade de pensar e esse conformismo vai além das escolas “conservadoras” e tradicionais! Esta educação voltada pro vestibular e pro nada está em todos os lugares, mas principalmente na cabeça dos individuos, estejam eles dentro ou fora do processo de escolarização!

Ao longo dos ultimos anos de faculdade e durante toda minha caminhada pela educação, sempre me foi clara a noção de que eu - produto do salesiano - queria mudar o mundo, porque outros ali também não podem querer,ou seja, ali dentro tem uma garotada muito cabeça! Segundo, se de acordo com o que vemos são os filhos dessas escolas que vão “mandar” no mundo - eu espero que não apenas eles - então é no meio deles que devo estar!

Uma coisa meio messianica! hahaha

Vejo muito mediocridade, muita hipocrisia, falta de ética e solidariedade! As vezes díi! Já passei o curta “Ilha das Flores” e uma turma de alunos conseguiu fazer piada, confesso que sai chorando da sala e me perguntando que mundo será esse! E o que eu estava fazendo ali! E conversei com o Enio, conversa que me ajudou a voltar a ver sentido em tudo aquilo…

Sou professora porque acredito que a escola - revolucionária - pode mudar muita coisa! Que em sala de aula você pode fazer tremer algumas bases! Por exemplo, falar de homossexualidade e nazismo! Tive essa experiencia em 2005 e foi chocante! Pensei que iria apanhar! Eu e mais uma aluna… Mas o próprio incomodo é importante!

Ano passado a oitava B fez chorar com um trabalho sobre Violencia Sexual[1]… pequenas coisas!

É no espaço da sala de aula que a revolução começa! Permitindo que as pessoas se incomodem!

Claro que seria utopico pensar que todos se tocariam da responsabilidade de viver nesse mundo, dos seus atos…

Em relação aos alunos e suas opções politicas… Bahhh , isso é o mais complicado! Boa parte de direita, mas sem saber porque! Me incomoda? Claro! O que eu faço? Questiono e as vezes sou irônica!

Se me sinto contraditória, já que me considero libertária!? Às vezes sim… o “correto” seria trabalhar em outro lugar! Mas, onde? O que sempre fiz nesses anos todos foi falar do que eu acredito e ouvir as pessoas! Aprendi isso quando comecei a conhecer o anarquismo… Nunca tive vergonha de assumir minhas posições! Por exemplo, esse ano anulei o voto e nao escondi de ninguem!

Não sei se vocês estão me entendendo! São as micro-revoluções diárias!

Escola conservadora! Bem, ai depende o que vocês estão entendendo por isso… Em relação a religiosidade! Isso é muito pessoal. Já o fato da escola ser católica?! O Salesiano desde o final da década de 1970 assumiu uma caminhada na Teologia da Libertação - resumindo, uma vertente da I. Católica de orientação mais socialista, mais povo - A Carol [Cubas] pode falar mais deles pra vocês! O colégio foi palco para a juventude comunista da década de 1980… Então, mesmo sendo cristão foi revolucionário, entende?

A galera da década de 1980 teve aula com professores comunistas, inclusive o segundo A do ano passado teve uma palestra com um deles! O Bento, lembram?

Entao, não é porque tem o nome católico na “etiqueta” que é em todos os sentidos conservador… Em alguns pode ser… mas aí entraremos em outra discussão!

Sabe, já dei aula em colegios com uma propaganda super “atual e laica”, mas reproduziam papéis sociais da mesma forma e ainda por cima, percebiam o conhecimento e o aprender como uma mercadoria! O tal enlatado chamado apostila!

Pra mim, muito ruim, mesmooo, é me ver tendo práticas conservadoras… Por exemplo, perder 20 minutos de aula discutindo sobre nota, lembra Tiago?

Mas, melhor ainda, foi a chamada de atenção do Tiago e ter ouvido as palavras dele… Detalhes…

Olha, não há espaço onde existam pessoas que pensem igual a gente, não mesmo… Mas as leituras que venho fazendo me ensinam a ver o entrelugar, a possibilidade de rompermos com a bipolaridade - bem X mal, mulher X homem, branco X preto - mesmo em um espaço que acharíamos impossível!

Se quero um dia trabalhar em uma escola libertária ou ter uma escola assim?!!! Claro… Se acredito que todos lá terão corpo e alma libertária? Não… e não é isso que deixará meus cabelos brancos… entendem?

[1] O trabalho sobre exploração sexual infantil ao qual a Fabi se refere foi feito no ano passado pela Carol. Pretendemos publicá-lo no Mal Vicioso assim que recuperarmos a apresentação completa.

Valeu pela resposta, Fabi! É de gente assim que precisamos pra mudar o mundo. Estamos a espera da Carol e publicaremos assim que ela enviar. :)

Nota 1: Carol Peters é escritora desse site. Carol Cubas é professora de história. A primeira é Carolina e a segunda é Caroline. Tentamos fazer de tudo para diferenciá-las, mas caso algo tenha ficado ambígüo nos avise pelos comentários.

Nota 2: Estamos em aula e tá super difícil de escrever algo inteligente, criativo e original como é todo o post do MV, modéstia a parte. Essa idéia de perguntar às nossas professoras por que elas dão aula no Salesiano foi ótima e adoraríamos outras sugestões de posts ou de perguntas a elas mesmo ou a outras pessoas. Sinta-se a vontade para entrar em contato.

Compare Preços de: material escolar, abridor de mente, camisetas do Che Guevara, professores libertários

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Escrito por Carol e Tiago e postado em Sociedade no dia 14/02/2007 às 18h 59min. Acompanhe os comentários via RSS 2.0. Você pode deixar um comentário ou fazer um trackback do seu site.

9 comentários para “Revolução pela educação”

  1. #1 | John Artmann

    Achei muito legal essa entrevista.
    Gosto da professora Fabiana e sua maneira de entender a História, tivemos diversas conversas, principalmente, no assunto: Maçonaria.
    Conversas muito legais.
    Como seres humanos, discordamos em alguns aspectos, mas sempre pacificamente. Hehehe.

    Então, agora que eu falei, tive a idéia, sugestão pra post: Maçonaria.

    Abraços.

  2. #2 | Carol.

    Eu escolho bem minhas amigas, viram?

  3. #3 | Pablo

    Gostei muito destes dois trechos:

    “Não sei se vocês estão me entendendo! São as micro-revoluções diárias!”

    e:
    “Se quero um dia trabalhar em uma escola libertária ou ter uma escola assim?!!! Claro… Se acredito que todos lá terão corpo e alma libertária? Não… e não é isso que deixará meus cabelos brancos… entendem?”

    acredito nisso também, eu mesmo fui enfluenciado desta maneira.

  4. #4 | Mal Vicioso » Revolução infecciosa

    […] Resposta da professora Caroline à nossa pergunta: […]

  5. #5 | Enio

    Interessante a discussão proposta. Acho que pode crescer e amadurecer.
    História tem a ver com “permanência e mudança”. Existem elementos na religião cristão que permanecerão e serão sempre novos, outros sofrerão mudanças porque envelhecem. Só a leitura, a reflexão, a meditação, a vivência e contemplação nos iniciarão na beleza da VERDADE.
    A História, a Filosofia e a Teologia (e todas as outras ciências) são caminhos que podem nos conduzir a contemplação da VERDADE.
    Interessante ver os relatos do envolvimento da Fabi e da Carol com os alunos do Salesiano. Louvo a atitude de ambas de procurar perceber os alunos, sentir suas necessidades, de apresentar os problemas do mundo, de promover leitura e discussão, sem quererem impor “verdades”, preocupadas em levar os alunos à reflexão, à meditação, possibilitando fazer escolhas “muito humanas” e por isso, cristãs.
    A ignorância (falta de conhecimento) normalmente vem vestida de “conservadorismo”. Só se sai do túnel no momento em que se avista uma luz.
    Sugiro a leitura de uma entrevista com um dos mais conceituados e respeitados teólogos da atualidade, Hans Küng.
    http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=2777

  6. #6 | Fabi

    * Um erro no meu texto: nunca trabalhei em escola pública…

    sempre trabalhei em escola particular!
    =)

  7. #7 | Mal Vicioso » O que a imprensa não fala sobre a greve na USP

    […] Fabiana Nicolau, mestranda na USP […]

  8. #8 | Silvino S Kanzler Neto

    Fui dar uma olhada no site do colégio pra matar um pouco da saudade dos anos que passei por lá (1988 a 1997) e acabei vindo parar aqui no blog de vocês.
    É reconfortante ver novos alunos com uma postura crítica e atuante diante dos problemas do mundo e da educação que lhes é oferecida.
    Estou na minha segunda formação acadêmica; agora faço Filosofia na UFSC (cansei do mundo dos negócios…rs) e digo que aqui também rola uns embates com relação a real sabedoria de alunos e professores.A “Academia”não é tudo que poderia ser, mas ainda é o melhor lugar para se encontrar pessoas dispostas a fazer a diferença.
    Quando se trata de Filosofia, a situação fica ainda mais complicada, pois muitos ( me incluo entre eles) contestam se a Filosofia deva ser uma disciplina universalizada para todos.
    Mas são questões intrincadas que demandam muita discussão.Todavia para um
    aristocrata ateu é sempre um bálsamo citar um apontamento de Nietzsche:”A experiência nos ensina que nada atrapalha tanto o desenvolvimento dos grandes filósofos
    do que o costume de sustentar os maus nas universidades federais.(…)Nenhum Estado ousaria proteger homens como Platão e Schopenhauer.O Estado sempre tem medo deles.”
    Abraço pessoal.Talvez em julho eu volte a Itajaí, para nas eleições dizer umas verdades merecidas a estes medícres que estão afundando esta cidade (me refiro tanto aos governantes quanto a este povo de mau gosto). Com apreço,
    Silvino

  9. #9 | Silvino S Kanzler Neto

    Errata: não pega bem né, chamar meio mundo de medíocre e ortografar o termo de maneira errônea.C’est la vie

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